Os médicos se acham imortais. Não deveriam, afinal eles conhecem de perto a enorme gama de possibilidades.
Meu pai era assim. Ele nunca ia a médicos, nunca fazia exames. Se cuidava, e muito, mas apenas no que ele enxergava. Sentia dores nas costas, e o ortopedista mandou que fizesse ginástica. Fazia diariamente, religiosamente. Controlava a alimentação, mantinha o peso, não abusava. Mas nunca soube se tinha pressão, colesterol ou glicose altos.
Cuidava de todos. Proporcionou-nos tratamentos para o corpo e a alma. Quando eu quis fazer terapia, indicou (e pagou) um ótimo colega por 4 anos. Na época em que não havia vacina de gripe no Brasil, importava e nos aplicava anualmente.
Não sei se teria sido possível evitar o enfarte fulminante que o levou aos 55 anos. Não sei que sinais poderia haver em seu corpo indicando o desfecho iminente. Mas gostaria que ele tivesse tentado, já que ele tinha tido alguns desmaios, e poderia desconfiar que algo estivesse correndo errado.
Mas ele achava que nada poderia acontecer, que o tempo é infinito e que tinha previsto todas as possibilidades.
Sinto falta dele todos os dias. Gostaria que ele tivesse me conduzido ao altar, que tivesse carregado meus filhos no colo, que almoçasse na minha casa aos domingos.
Ele entendia como o mundo funcionava, o que movia os relacionamentos, o que era importante para cada um de nós.
Hoje não trouxe ao post nem prazeres, nem afazeres. Trouxe um pedaço da saudade que sinto, e a gratidão por tê-lo tido em minha vida por 24 anos.
Pai, se você puder me ouvir, eu te amo.
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